Carta do Leitor

Depoimento: As compras eram reflexo de que me faltava algo

por Camile Carvalho em 30/10/2013

Após publicar o último depoimento, recebi um email muito bacana da leitora Carol Alves. Ela escreveu uma reflexão muito bela e inspiradora sobre as mudanças em sua vida e eu tenho o maior prazer em compartilhar com vocês seus pensamentos.

Ao longo dos últimos anos, meu estilo mudou.

Por muitos anos trabalhei em escritório de empresas grandes e multinacionais.

Vivia “montada” e muito bem montada por sinal. Salto alto, terninho, maquiagem… e tudo aquilo que condiz com o que um trabalho “formal” pede.

Gastava muito, muito mesmo, posso dizer que gastei quase tudo que ganhei com isso. E hoje em dia não sobrou nada daquilo, quer dizer, nada material, mas sobrou o aprendizado.

Tinha que acompanhar as meninas, ter todo dia uma peça nova, porque as pessoas reparavam, algumas pareciam até fazer mentalmente um “inventário” do meu guarda roupas quando falavam “olha, essa sua blusa é nova, eu nao conhecia“…

Que tipo de controle é esse? Que tipo de dependência era essa que eu tinha? Sim, um tipo de droga, né, era preciso comprar algo novo todos os dias, era amiga das donas das lojas (claro que especificamente por interesse delas) e tinha orgulho de ser chamada pelo nome quando ia com minhas colegas nas lojas.

As vezes, no horário de almoço me vinha uma pontinha de inveja quando via passar a menina de havaianas, brinco hippie e sem um pingo de maquiagem, no fundo sentia que aquela também era um pouquinho eu, aquela eu da adolescência, que havia ficado para trás, eu achava que como adulta, precisava andar na moda, impecável sempre. Às vezes acordava uma hora antes para fazer escova no cabelo… Um dia, durante a manhã, percebi que havia esquecido de colocar brincos e passei a manhã inteira escondendo as orelhas com os cabelos (!!) e na hora do almoço corri na loja mais próxima para comprar um par de brincos (!!!!) porque me sentia muito mal sem… imagina, uma mulher sem brincos… nunca!

Não tenho vergonha de contar. Também atribuo isso a uma imaturidade, visto que tudo isso é coisa de 15 anos atrás ou mais, mas também para ilustrar a que ponto essas meninas chegam dominadas pelo consumismo. Eu cheguei a assinar mais de 10 revistas por mês, e hoje vejo que elas me traziam apenas mais e mais vontade de consumir, e comprar comprar comprar, e estar sempre preocupada com a aparência, com o que os outros vão pensar…

A liberdade que tenho hoje é indescritível. Claro que sou uma pessoa arrumadinha e limpinha, rs, mas sem salto alto (pra que massacrar meus pés com tantas opções lindas de flats que tem por aí?), sem as neuras das bijus (nada substitui uma boa echarpe), sem a neura das manicures (descobri que uma pessoa mega chique e que admiro muito que é Consuelo, filha de Costanza, fala que nao faz as unhas porque acha feio unhas descascando e como não existe no mundo ninguém que consiga estar sempre com as unhas impecáveis, e que também não quer gastar horas por semana em salão, ela prefere manter sem esmaltes, certa ela, né?) e maquiagens (também concluí que envelhecem pelo menos 5 anos quem usa muito) Hoje eu descobri uma coisa muito preciosa. Descobri que as pessoas estão tão preocupadas com suas próprias rugas que nem reparam nas dos outros…

Você viu que estou com cabelos brancos??” “Ahh mas eu também, olha aqui

Hoje sou autônoma e professora de yoga, atingi a vida que no fundo eu procurava, pois todas as compras eram reflexo de que me faltava algo, mas que eu nao sabia o que, nem como satisfazer. Me visto muito mais light, não compro um milhão de coisas, me tornei minimalista e descobri uma coisa muito importante, que é o valor das coisas que tem alma. Uma vez trabalhei em uma multinacional e o diretor de marketing (que já havia trabalhado com pessoas muito importantes e redes de televisão de renome), era uma senhor (bem senhor) de cabelos e barbas brancas e extremamente “na estica”. Sempre de terno, muito bem alinhado, mas ele tinha uma coisa que me chamava a atenção: a pasta dele, (dessas que os executivos usam) era de couro bege artesanal (sabe esses objetos de couro puro desenhado que a gente encontra nas feirinhas?) e era bem desgastada, e confesso que destoava um pouco do terninho preto e perfume importado, mas eu ficava pensando no que aquela pasta representava para ele, em quantos empregos ele já devia ter trabalhado com ela, que talvez fosse presente de uma pessoa querida, talvez até uma herança, enfim, eu pensava que se aquela pasta pudesse falar eu com certeza passaria horas escutando suas historias… Isso significa que aquele objeto tem alma, tem historia, os meus nenhum tinha, era tudo novo, de marca, que trocava ao passar a moda ou enjoar, enfim, eu era uma pessoa superficial, minha aparência não contava minha história, contava consumismo.

Hoje vejo que quando a gente quer muito uma coisa e espera um natal ou aniversario pra pedir, ou mesmo junte um dinheiro pra comprar e por fim consiga, que o valor dessa coisa é imensamente maior, e que assim temos vontade de usá-la muito mais, viver histórias e aventuras com ela, “respeitar a compra por si só” como diz Costanza Pascolato quando diz que nao devemos comprar mais de um item por vez.

Quando penso em todo dinheiro que gastei para me tornar uma pessoa “respeitada” mas pelos motivos errados e que eu era uma pessoa que seguia moda, mas não tinha estilo, não lamento não, pois fez parte de mim, foi bom pra aprender, mas hoje valorizo muito mais o estilo. E quero fazer historia com meus objetos, e quero que sejam poucos mas meus, que tenham tempo de pegar minha forma, adquirir meu cheiro, minhas energias, e não que durem apenas uma estação.

O mundo hoje prega o “fast” para tudo, e acredito que devemos resgatar o slow. Pressa de que? Vamos saborear melhor os nossos dias, e descobrir dentro de nós o que falta para sermos felizes, porque eu te garanto, isso que te falta, não está a venda em nenhuma loja!

Namasté

***

Se você também quer participar, envie um email para contato@vidaminimalista.com contando sua história. Ficarei muito feliz em publicá-la. Caso deseje, não publicarei seu nome verdadeiro.

Siga o Vida Minimalista no Twitter e acompanhe as discussões no grupo do Facebook. Curta também a nossa página e fique por dentro das novidades.


16 comentários leave one →

  1. Adorei a reflexão. Acho sensacional poder ler tantas histórias legais de pessoas que encontraram uma parte de si mesmas que estava perdida em algum canto. Parabéns, Carol!

    Responder
  2. Carla

    Nossa!!! Me vi no texto da Carol… Sempre comprei muito, principalmente por causa das pessoas com quem convivo, principalmente no trabalho. Estou em casa há oito meses porque tive bebê e nunca comprei tão pouca coisa para mim e para a casa como neste período. Claro que roupas, no início, foi por causa de meu corpo, mas de uns meses para cá parei de comprar porque percebi que tinha muitaaaa coisa, muita mesmo! Comecei a ler sobre minimalismo e estou destralhando meu apartamento, está difícil, confesso, mas já tirei várias e várias sacolas. Minha empregada sai toda semana com sacolas de objetos descartados. Já doei quase todos os livros da época da faculdade (10 anos que estou formada, sim…), mais da metade de meus sapatos e muita roupa! Resolvi colocar a venda alguns móveis que estão trancando a casa e consegui mexer em minhas duas caixas (enormes) de lembranças, de duas fiz uma, já é um começo…
    Sei que tenho muito o que fazer ainda, minha meta é terminar antes de eu voltar a trabalhar daqui a três meses. Até lá quero quitar minhas dívidas e continuar comprando somente o que for extremamente necessário
    O mais difícil será o meu retorno ao trabalho e o desafio de não voltar a consumir sem controle, gastando quase todo meu salário em roupas, sapatos, bolsas, jóias, cabeleireiro…
    Por enquanto sigo focada em levar uma vida minimalista, destralhando minha casa e minha vida!
    Parabéns pelo texto Carol!

    Responder
  3. yara asche

    Muito bacana, tambem cheguei a essa conclusao de que compramos muito para agradar outros ou para se sentir parte de um mundo. Quanta ilusao ne, precisamos mesmo agradar a nos mesmas e os outros sao os outros. Tambem encontrei o minimalismo porque estava procurando um jeito de mudar a minha vida, estou caminhando e ja me sinto muito mais feliz. Bj

    Responder
  4. Mais um depoimento que gostei bastante de ler! É bom ler pessoas reais falando de suas vidas, de como eram e como se sentem agora…isso demonstra claramente que estou no caminho certo em querer uma vida mais simples, com menos apego ao consumismo desenfreado.

    =)

    Responder
  5. Carol Alves

    Nossa, que honra ver meu texto neste blog que gosto tanto! Obrigada a quem comentou também, mas é isso mesmo, o caminho para o minimalismo também requer disciplina, todos temos recaídas, o negócio é seguir firme em seu propósito acreditando que está no caminho certo! Obrigada por publicar Camile! 🙂

    Responder
    • Rafaela

      Muito inspiradora a sua história Carol, com certeza tinha que ser compartilhada, obrigada Camile por dividir isso conosco!

      Responder
    • Rafaela

      Muito inspiradora a sua história Carol, com certeza tinha que ser compartilhada, obrigada Camile por dividir isso conosco!

      Responder
  6. Thais

    Adorei esse testemunho da Carol! É impressão minha, ou esses ambientes corporativos são mais cruéis em relação à aparência das pessoas?

    Depois de ler, fiquei pensando no que “me falta” quando eu fico olhando sem parar “sonhos de consumo” na internet ou nas vitrines…

    Responder
    • Camile Carvalho

      Vivemos sendo martelados por sonho de consumo, de dar valor ao que não temos e não prestarmos atenção no que temos. :/

      Responder
  7. Jéssica

    Me identifiquei muito com o depoimento. Meu ponto fraco, nos últimos tempos, atendeu pelo nome de maquiagens. Com essa febre de blogs e vídeos no youtube sobre cosméticos me vi perdida em meio a tantas novidades e informações. Estava mais preocupada em não perder nenhum lançamento do que verificar, de fato, a qualidade dos produtos que eu comprava. Só fazia acumular maquiagens que, muitas vezes, não tinha oportunidade nem ocasião para usar. O resultado disso tudo foi dinheiro jogado fora e muita tralha sem utilidade. Estou passando por um processo de destralhamento também e já consegui simplificar muito minha vida. Me sinto cada dia mais livre. Parabéns, Carol!

    Responder
    • Camile Carvalho

      Eu, como mulher, também gosto de ver blogs de maquiagem, de roupas, mas tem uma hora que paro e reflito, que parece ser algo tão superficial, com a mensagem “compre, compre, compre” e fico um tempo sem ler sobre o assunto. Eu reduzi bastante minhas maquiagens e falo sobre isso aqui: [Organizando as Maquiagens]. Tenho outro post interessante falando sobre a importância de usarmos tudo o que compramos. 🙂

      Responder
  8. Liiiiindo depoimento!

    Responder
  9. Rafaela

    Lembrei do filme Os Delírios de Consumo de Becky Bloom com esse depoimento, o filme conta a história de uma moça que gasta além do que ganha com roupas e itens fúteis, ao ponto de se endividar seriamente, e que se vê forçada a mudar de vida. Tem um romancezinho meio mamão com açúcar na história mas faz refletir bem sobre esse consumismo voraz existente hoje em dia. Parabéns Carol pela sua nova vida!

    Responder
  10. Adriana Maria

    Depoimento inspirador e reflexivo!!!
    Adorei!!!

    Responder
  11. Patricia

    Dias atras estava pensando nisso também. Apesar de não ser fashionista, longe disso, mas sou consumista. Isso me irrita muito, pois como a autora do texto mesmo disse, não faço nada com meu dinheiro a não ser gastar com coisas fúteis e muitas vezes inúteis…
    Tenho tentado mudar e tomara que consiga.

    Responder
  12. Maria Clara Mateus

    Esse texto era tudo o que eu precisava ler hoje! Quanto mais valorizamos o consumismo e desejamos ter mais e mais, maior o vazio dentro de nós.

    Responder